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A Árvore dos Livros

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O Sol teimava entrar pelas fissuras das portadas de carvalho, quando o despertador tocou pela terceira vez, já em cima do soalho envernizado e luzidio, que Dália se levantou contra vontade.

A noite tinha vindo cedo e ela tinha-se deitado tarde de regar tantas raízes.

 

            A Dália vinha de um poema, uma gestação demorada. Sua mãe, Dª. Bendita, já  estava redonda, pesada até nos lábios, deixaram de se ver os tornozelos ao fim de 42 semanas de Dália dentro de si.

A vila murmurava entre manhãs de missa e tardes de futebol que a criança não queria nascer em terra infértil. E Dª. Bendita andava, cantava, pedia, rezava, suplicava, prometia, sofria e chorava e nada de Dália querer ver os raios de Sol que teimavam entrar naquele quarto tons pastel todas as manhãs.

            Um dia de calor intenso, onde o simples levantar da cadeira fazia o mais atlético escorrer lágrimas da pele, a  Dª. Bendita chamou a curandeira de roupa de retalhos e olhos que atravessavam almas e contou-lhe desesperos de uma mãe, que quase já não queria ser.

Houve silêncio no quarto, uma espécie de paragem de mundo entre aquelas duas mulheres, e depois, uma ordem simples e prática. Deixar de raízes mortas e plantar uma Laranjeira, regar a cada hora certa ao som de uma história ou poema de crianças, não podia repetir, nem faltar às badaladas. Era pura loucura pensou a  Dª. Bendita, Laranjeira em terra de barro, histórias em água, mas tal era a angustia em nome flor que assim foi. À 42ª história, mesmo antes do viveram felizes para  sempre, nasceu Dália, a menina das laranjas castanhas que cresceu com uma colectânea de livros na cabeça, em terra estéril de laranjeiras e outras histórias.

            Vila Chão era sítio de Sol, terrenos baldios e cores pouco quentes, onde a cor mais berrante era a do céu, cheirava a pó e havia fome de cores e barrigas, até Dália ter descoberto como nascera, e o porquê do seu quintal ser o único com uma árvore que não era cacto. Soube-o através de Narciso que lhe trouxera a história em noite de trovoada e promessas de pomares em lugares ainda por descobrir. Foi assim que Dália se apaixonou, nunca se soube se pela história, se pelo galã de olhos verdes e perfume de flor que nunca tinha cheirado. Nessa noite entre apertos de estrondos do céu e apertos de peito que estrondavam a terra, Dália engravidou da sua história.

            Findo enjoos, sem calças para vestir e com os ouvidos mais cheios que a barriga, foi num fim de tarde sem sombras falar com a curandeira de retalhos, para esvaziar o medo da história genética que tantos lhe contaram, até ela acreditar que Jasmim não iria querer nascer de quem um dia também não quis.

            Receita passada, um Limoeiro, rega duas vezes por semana ao bater das 7 horas, uma nova história de criança a cada esvaziar de regador e à 42ª rega nasceu Jasmim, com olhos verdes de Narciso e sinal de Dália na bochecha.

            Tal foi a felicidade que quando deu por si tinha nova história na barriga. Desta, mais cedo se apressou a comprar uma Macieira e uma vez por semana a mesma rotina, a mesma felicidade, a mesma história.

            Eram já cinco as flores de Dália e Narciso, eram já dez as árvores de fruto com as primas e vizinhas que se juntavam. Tornou-se ritual e costume em Vila Chão, e às terças-feiras, grávidas, mães, crianças, projectos e muitas histórias se juntavam no Pomar de Dália e Dª. Bendita. Há 42ª criança, não conhecendo ninguém, mais árvores, mais frutos e mais histórias, decidiram regar as raízes secas de Dª. Bendita e inventar histórias meias sem sentido. A criança nasceu, de nome Flôr, a árvore cresceu e ninguém conhecia tal casco ou tom, era esguia e alta, fina mas forte, deixava cheiro pelos quintais alheios e tinha folhas verdes e brancas, ou melhor, tinha folhas brancas escritas a verde. Ainda hoje a árvore está no Pomar da minha avó, onde desde sempre vive a minha mãe, agora meia louca de saudades do Narciso, de tanta história, tanta raiz, tanta criança.

 

            Sou a Jasmim, o Limoeiro, e hoje é terça-feira, espero que a minha mãe, a Dália de que ouviram falar, tenha consigo sair da cama, ficou-lhe o vício, já não tem histórias na barriga, rega raízes e lê eucaliptos.

 

(desenho feito pela filha de uma colega)

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Margarida Mourão

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