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Escrescer

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Juras

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Há pessoas que não lêem jornais, o mundo aflige-os.

Edgar escrevia livros, viajava e conhecia pessoas pelo mundo, apaixonado pelas pequenas histórias e coisas, às vezes esquecia as grandes. Era um criativo do pôr ao nascer do sol, dormia até acordar e começava os dias devagar. Tinha 45 anos e estava na fase tranquila da vida onde tudo fazia sentido e sabia bem, um morno aconchegante. Casado com Linda há 20 anos, a mulher da sua vida, namoro de faculdade, ultrapassaram juntos o divórcio dos pais dele e fuga da mãe para a Tropea, a acrofobia dela e algumas crises financeiras, próprias de quem tenta vingar sem fugir aos ideais. Jurou-lhe amor eterno, para Edgar as juras são como a morte, uma coisa certa.

Duas almas criativas, ela de luxos e interiores de casas e ele de lápis de carvão e livros. Linda trabalhava na casa dos outros, Edgar trabalhava na casa de todos, escrevia em museus, galerias abertas 24 horas, na estação central, no banco do jardim. Vagueava entre pessoas e outras peças de arte e depois deixava a mão fluir. Nesta rotina chegava a dar a volta à cidade no banco de uma qualquer carruagem do metro. Foi num destes dias que, entre sobretudos, chapéus e caras desconhecidas, se cruzou com um agabardinado de lenço ao pescoço e jornal espaçoso aberto nas escadas rolantes. Um cruzamento como outro qualquer, não fosse a arritmia que o fez deixar de pestanejar durante todo o tempo que demoraram aquelas escadas a subir.

Era o Diário de Wellake e na capa a inauguração de um qualquer Hall com um 1º plano do Sir Philip e, quase em movimento, uma mulher elegante de cabelo apanhado e costas rompidas por um fio de pérolas.

Absorto, vagueou em passo lento pela rua, inspeccionando a leitura de quem se cruzava, não voltou a ver a foto, e nos quiosques o jornal estava esgotado à conta da grande inauguração na cidade vizinha. Sentiu um choque no peito e uma falta de ar tal que achou que ia desfalecer mesmo ali, no meio do mundo. Casa, era essa a rota hoje, casa, respirar fundo por mais que os músculos enrijecessem, andar até ao fundo da rua, virar à esquerda, andar devagar, mas ir para casa.

Chegou ao nº 50 da Born Street e lá estava em cima da mesa da porteira o Diário de Wellake. Deu-lhe um sprint no coração, nas mãos, nas pernas e subiu os degraus de dois em dois até ao 4º andar, abriu a porta, gritou por Linda, deixou cair a pasta, as chaves e correu para o quarto, abriu o roupeiro e vasculhou tudo, tirou tudo, e nada do vestido azul escuro, marinho como ela corrigia, nada do vestido das Bodas de Porcelana de Abril passado.

Edgar caiu de joelhos no chão fixado na foto. A lavandaria era a grande prova que lhe assolava a mente, saberia tudo se o vestido tivesse dado entrada hoje, tinha a certeza.

30 de Maio, a maior noite do ano, uma espécie de droga intra-cardíaca tinha-lhe toldado o siso. Estava lá, mas não ouvia, respondia de cor, não conseguia acreditar, articular, pensar, dormir, nem escrevia.

Fingiu dormir, deixou Linda sair, e de casacão por cima do pijama, cabelo penteado pelos dedos no elevador, confirmou 3 portas a baixo que o vestido estava pronto para levantar ao fim da tarde. E assim foi.

Ao jantar, a surpresa de Linda pela companhia, pela mesa com serviço de prata e sopeira da avó servindo vestido azul marinho em molho de vinagre e cravinho.

Não houve pratos partidos, nem gritos, foi uma noite de 2 pessoas e 2 palavras, porquê e desculpa, interminavelmente, variava em tons, entoações e oradores. Imperdoável a traição dela ao homem e ao amor e condenável o desapego dele à paixão e luxuria da mulher.

O vestido pô-lo ele no lixo, junto com o anel dourado que já era como pele na sua mão. A jura não conseguiu deixa-la lá nessa noite.

 

Passaram 730 noites. Metade, pelo menos, foram de amigas, amigas de amigos, de amigas de café, amigas de jornal, amigas do passado, de amigas dela, amigas dele, algumas noites de sexo sem luz, sem cheiro, sem beijo, sem nuncas nem para sempres, sem juras.

Dois anos depois comprou o Diário de Wellake:

 

“Quando o luxo e a elegância ficam bem ao seu lado. Luxlinda@sparkline.com

 

O coração palpitou, os dedos tremeram e Edgar não conseguiu evitar, escreveu 20 vezes apagou outras tantas, enviou e de lá veio uma espécie de Out of Office a pedir um contacto, uma recomendação, um nome. Nem uma pista. Insistiu sem nome, nem contacto, uma recomendação inventada, uma morada.

 

“Agradecemos a sua preferência e interesse. Não reconhecemos a referência. Os nossos serviços só abrangem até à área de Lessville”

 

Era essa a pista que Edgar precisava, foi aí a inauguração do Matthews Hall. Escreveu tudo, o nome, o telemóvel, a história, a sua, a dela, escreveu muito mais que dois anos. Pediu um jantar e a conta.

Foi servido vinho francês e ostras acompanhadas de molho jalapenho, um prato doce que cheirava a mar. Depois de todos os savoir-faires pagos em cash, por quem um dia a levou ao altar, a noite acabava, sem lamurias nem cenas lamechas, num quarto do Ritz Diamond Lville, um cinco estrelas com vista panorâmica para o lago da cidade vizinha. Houve tudo! Beijos e cheiros, suspiros e nuncas, luz e para sempres e juras... dele.

Dela houve brilho, nas pérolas dos brincos, no anel dourado, nos olhos e nas lágrimas no fim da noite, que a ele não fizeram brilhar.

Edgar não quis voltar.

Mandava e-mails, combinava fins-de-semana, solicitava acompanhamento para idas ao cinema e fazia filmes em quartos de hotéis. Continuou a pagar jantares e tempo, que era um luxo para Edgar e Linda.

 

As juras são como a morte.

 

Edgar Wright

22 Janeiro 1969 – 22 Abril 2018

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Margarida Mourão

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