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Escrescer

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Quinta da Palha

Obrigada Pixabay

            Filho único da família de caseiros da Quinta da Palha, pertencente ao Sr. Bacelar e à Sra. D.ª Aura, casal da alta sociedade de Guimarães, sem descendentes. Eu crescera rodeado de verde, cheiro a alfazema e bons amigos. Tó sempre me ouvira em dias de castigo, com as suas orelhas maiores que a cara, Rosa era a cúmplice de todas as fugas lamacentas, de beijos e cumprimentos a desconhecidos e Tabu, o melhor companheiro de aventuras, campos fora e mergulhos no rio proibido de margens bordadas a seixos. Sempre fugira de aulas de secretária e de colegas de camisa.

            Na manhã do meu décimo oitavo aniversário, meu pai oferecera-me o melhor presente de todos, a tão ansiada chave do Mercedes azul-óleo. Uma felicidade imbatível, o odor de sempre, um volante e uma caixa de mudanças só para mim, mas mais do que velocidades, uma passagem de testemunho sem preço. Tinha tanto para aprender, não era só o recolher as ovelhas com o Tabu, era preciso tosquiar, ordenhar, fazer queijo. Além de descobrir novos caminhos de Mercedes, tinha de aprender as estradas das reuniões do Sr. Bacelar Palha, cheias de trilhos pretos rasgados de branco, luzes e buzinas, que tiram a piada de conduzir ao melhor dos motoristas.

            Chegava à idade adulta sem muitos humanos e, quando naquela manhã de chuva torrencial e nevoeiro serrado tocou o telefone com a notícia dos bombeiros, que fez a mãe cair estatelada no chão, não houve abraço do padre Zeferino que me fizesse ter a espinha dorsal no sítio. Tó, Rosa e Tabu não davam abraços dos que colavam corações.

            Num minuto fiquei sem o meu herói, o meu pai e sem patrões.

            A Quinta da Palha foi abandonada em disputas de primos, tios e considerações de proximidade, fazendo com que eu e a mãe Maria nos mudássemos sem emprego ou qualquer tipo de maquia para Candoso, uma vila que não nos esvaziava as algibeiras. A minha mãe forte e rosada, desaparecia todos os dias um bocadinho, como se a cama lhe sugasse todas as noites sonhos e refegos. Eu, de olhos derretidos até às bochechas, lá arranjei umas camisas que tinha para casamentos e funerais e comecei a trabalhar como carteiro, para arranjar tostões para alimentar o teto, a mãe Maria e o Tabu.

           Fomos ficando neste chove que não molha anos a fio, até que um dia a cama não devolveu nada da mãe Maria e eu, queria mais do que nunca, voltar a ter os bons amigos de antigamente. Como tinha saudades de Tó e da Rosa!! Mas nada havia a fazer. Sem posses, nem estudos, lá ficava por saudades e sonhos de um dia encontrar a mulher que me aconchegasse as noites e o estômago, com um cozido parecido ao da mãe.  

            Sete anos depois de ter começado a entregar correspondências, era à minha porta que estava uma carta dirigida a mim, Fausto Santos Silva, nas mão de recém apresentada Constança. Ali, suspenso, li com o mesmo custo com que olhava para aquela menina-moça.

          Quem era a moça de cabelo amarelo e costas direitas?

          Era a sobrinha-neta do Sr. Bacelar, que um mês depois me acompanhou na escritura da Quinta que me deixaram como herança.

 

          Amanhã levo-a ao altar, no meu velho Mercedes azul-óleo, a Constança de cabelo amarelo. Vai-nos abençoar o padre Zeferino. A Quinta da Palha voltará a ter um Tó e uma Rosa, e nós uma Maria, se Deus quiser. 

Margarida Mourão

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